Fitó apresenta culinária afetiva e de inspiração nordestina

Restaurante, novidade em Pinheiros, traz clássicos piauienses como carne-de-sol, arroz Maria Isabel, cordeiro no leite de coco e paçoca, em apresentação contemporânea

Comida afetiva, que carrega, além de sabor, muitas memórias. Essa é a proposta do Fitó recém-inaugurado no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. O restaurante traz uma culinária brasileira de inspiração nordestina, especialmente a vivência da sócia Cafira Foz (a Fitó, seu apelido de infância), cearense, criada no Estado do Piauí. A casa aposta numa apresentação leve e contemporânea e na boa relação custo-benefício, com pratos com preços que variam de R$ 25 a R$ 49, já incluindo alguns mimos como água filtrada.

Feito e servido por toda uma equipe feminina, o cardápio conta com pratos do dia e opções à la carte – destaques para o bife de carne-de-sol com purê de cará e vinagrete, a paçoca com baião de dois e a peixada (com pirarucu, pescada amarela ou cambucu), com arroz, farofa e abacaxi –, que traduzem a concepção da casa: culinária de afetos e histórias. O almoço contará sempre com um prato do dia: às segundas, Arroz Maria Isabel (arroz com carne-de-sol da casa em cubos, acompanhado de macaxeira cozida, legumes e vinagrete de tomates, R$ 25); às terças, Carne de Panela (acém marinado no molho de tomate, cachaça e tucupi preto, com cenoura, cebola, vagem e arroz vermelho cremoso, R$ 25); às quartas, Costelinha de Porco (temperada com especiarias e pincelada com geleia de cajá, acompanhada de legumada do sertão, R$ 25); às quintas, Caril de Frango (coxa e sobrecoxa de frango desossado ao leite de coco fresco e especiarias, com arroz e quiabo, salteado no óleo de babaçu, R$ 25); às sextas, Peixe de Praia (peixe do dia, como pescada branca, trilha ou pargo, empanado na tapioca, vinagrete de feijão fradinho, farofa da casa e arroz, R$ 25) e aos sábados, Carneiro no Leite de Coco (pernil marinado e depois cozido no leite de coco fresco e caseiro, acompanhado de cuscuz de milho com manteiga da garrafa e legumes assados, R$ 49). Além do menu executivo, haverá outras opções no à la carte e que fazem parte das tradições nordestinas (do baião de dois à peixada) e criações da casa, como Salada Sertaneja (rúcula, agrião, brotos, tiras de carne-de-sol, tomate e batata-doce assados e ovo cozido, R$ 18).

FITÓ_carneiro no leite de coco_créditos Mario Rodrigues
O prato do dia para o almoço no sábado é o Carneiro no Leite de Coco preparado pela cozinheira Cafira Foz. Foto: Mario Rodrigues.

Num primeiro momento, a casa opera apenas no almoço. Para harmonizar, oferece chope e cervejas artesanais nacionais, vinhos em taças e uma carta de qualidade, exclusivamente brasileira (qualquer um dos rótulos custa R$ 99). A carta é assinada pela bartender Fran Moreira, que teve passagens pelo bar Flamingo e Jaime Oliver e atuou como chef de bar no restaurante Jamile. Ela aposta no artesanal e em frutas tropicais, em sintonia com os petiscos e pratos do Fitó. Dentre as curiosidades, estão bebidas infusionadas, xaropes e bitters de produção própria, gins e cachaças nacionais. Refrescos em vez de refrigerantes, como a Gengibirra, um fermentado de gengibre da casa com limão ou Cupuaçu Soda, cupuaçu, açúcar e água com gás. Um dos destaques é o drinque da casa. O Fitó reúne doce de limão do Piauí, rum, limão-siciliano, xarope de amora e amburana. Em julho, o Fitó abrirá também à noite, funcionando como um gastrobar, com petiscos (como pastéis de bobó de camarão e de carne-de-sol com banana-da-terra, casquinhas de siri com dendê e farofa da casa) e drinques.

Menu

Aliar a ancestralidade aos elementos da natureza, mas de uma forma contemporânea. Esse conceito de gastronomia é o que norteia o trabalho da cozinheira Cafira Foz, que assina o cardápio do Fitó. Intuitiva e autodidata, Cafira rejeita o título de “chef”, diz que é apenas cozinheira mesmo. Nascida em Fortaleza (Ceará), mudou-se, ainda pequena, para Teresina, no Piauí. Na casa dos avós piauienses, Cafira cresceu em contato com a natureza, entre palmeiras e cachos de buriti e árvores de bacuri, observando a criação de animais (capotes, a galinha d’angola, porco, caprinos) e práticas e rituais culinários, como a carne-de-sol e a paçoca, seu prato preferido. Sempre se encantou pela gastronomia, mas nunca havia pensado em trabalhar profissionalmente na área. Chegou a cursar Moda e a trabalhar com algumas grifes em São Paulo e em Florianópolis, antes de optar por empreender na gastronomia. Passando uma temporada em Lyon, com a mãe, radicada na França, e em viagens pela Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal e Marrocos, percebeu que poderia transformar a paixão em profissão e passaporte cultural. “A proposta do Fitó é ser uma extensão da minha casa, um espaço com amigos e para amigos. Receitas com uma aura familiar, num ambiente despretensioso. A principal inspiração acaba sendo o Piauí, Estado onde cresci e tenho familiares, mas a proposta é uma culinária brasileira sem muitas fronteiras nem rótulos”, explica Cafira Foz, sócia do Fitó.

A quebra de fronteiras, aliás, marca a trajetória da cozinheira. Depois de viajar pelo mundo e de atuar em outras áreas (como varejo e produção de moda), Cafira encontrou na cozinha a sua casa. Por onde passou, juntou experiências e preparos com os quais temperou a ancestralidade piauiense. Adepta da infalível receita de cozinhar e servir aquilo que lhe dá mais prazer, a cozinheira busca preservar as raízes sertanejas, sem abrir mão de sua essência cosmopolita. Um exemplo é o cordeiro no leite de coco com cuscuz de milho, tradicional no Piauí, que encontra seu equivalente no Marrocos, onde é feito no próprio molho, acompanhado de cuscuz de sêmola. Outra criação é o Caril de Frango, inspirado nos curries asiáticos, que utilizam elementos também presentes na culinária nordestina, como coentro, leite de coco e cúrcuma.

Dentre as especialidades do Fitó, destaca-se a carne-de-sol feita na casa. É diferente da carne-seca. A carne-de-sol é preparada com menos sal e pouco tempo em desidratação, técnica trazida pelos portugueses. No processo de cura, as enzimas da própria carne a amaciam e potencializam seus sabores. Apesar do nome, hoje em dia não é exposta ao sol. Fica curando em ambiente refrigerado (2º C), por um período curto (normalmente até 3 dias) e suficiente apenas para desidratar um pouco. Originalmente, o objetivo era prolongar sua vida útil para que suportasse as expedições sertanejas e a falta de recursos em uma região árida e isolada. Daí também nasce a paçoca, preparo feito à base da carne-de-sol pilada e farinha de mandioca, um alimento completo para sustentar os vaqueiros em suas longas viagens e que se transformou em um dos pratos mais tradicionais do Piauí. Já na peixada, misturas de elementos indígenas (mandioca e peixe fresco) complementam-se à tradição africana ao incorporar o leite de coco e o azeite de dendê, revelando o verdadeiro caldeirão da identidade brasileira que é o Nordeste. Para encerrar com doçura, haverá opções como bolo de chocolate belga com calda de cupuaçu e nibs de cacau ou o doce de casca de limão (doce em calda, feito com o limão taiti), sobremesa típica do Piauí.

drinque
Reprodução Facebook

Para harmonizar, muita cajuína gelada, o suco dourado de caju, um patrimônio cultural do Estado do Piauí. Sem álcool, clarificada e esterilizada, de preparo artesanal, a bebida é resultante da caramelização dos açúcares naturais do suco. Ou, ainda, o drinque da casa, o Cajuína Sour, que reúne cajuína, limão, cachaça artesanal e aquafaba (líquido de cozimento das leguminosas, que substitui a clara de ovo). Opção criativa de drinque vegano.

FITÓ_ambiente_créditos Ludmila Bernardi
Na cozinha envidraçada é possível acompanhar o preparo e os trabalhos da equipe. Foto: Ludmila Bernardi.

Decoração

Localizado no Largo da Batata, o Fitó surge em edifício completamente reconstruído, com uma fachada toda branca com janelas azuis, ao estilo das casas nordestinas e com logo que remete às xilogravuras populares, do cordel nordestino. O projeto arquitetônico é da dupla Claudia Bicudo e Marta Levy, e todos os passos da obra foram executados por Thomaz Foz, sócio e marido de Cafira. Numa área de 200 m2, o décor do salão apresenta muito verde, com samambaias e chifres-de-veado, elementos em madeira de demolição (da antiga construção), cimento queimado e chapisco, e detalhes coloridos e geométricos em azulejos do artista plástico Pedro Ivo Verçosa.

facebook petfriendly fito
A casa é pet friendly – Foto: Reprodução Facebook

Uma cozinha envidraçada, de onde se acompanham os trabalhos da equipe e o preparo, e um bar de 360º que recepciona os clientes. No piso superior, ainda em fase de finalização, um rooftop, uma agradável laje, bem no coração de Pinheiros. Nas escadas, uma imponente luminária em buriti feita pelo pai de Cafira, o designer Abrahão Cavalcante. O espaço – um deck com madeira e muitas plantas – funcionará para eventos especiais e também para noites animadas por forró e comida nordestina fresca, mas sem frescuras. Culinária mais de afetos do que de efeitos.

Fitó – Rua Cardeal Arcoverde, 2773-Pinheiros – São Paulo – Horário de funcionamento: segunda a sexta-feira, das 12h às 15h; sábados, das 12 às 17h. Feriados, das 12h às 17h. Não abre aos domingos. Pet-friendly e bike-friendly, com paraciclo.

 

 

 

 

 

 

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