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Saiba ler o futuro que alguns estão escrevendo agora*

As principais consultorias globais do mercado produzem, periodicamente, relatórios nos quais profetizam o futuro. São técnicos, analistas, acadêmicos e futuristas que se debruçam sobre os principais assuntos em discussão no mundo, as pesquisas em curso nas universidades e as necessidades da sociedade e, a partir dessas discussões, mapeiam as grandes tendências globais em diversos mercados e segmentos, arriscando seus palpites sobre o futuro no médio prazo. Dez anos, em média.

Em geral, esses relatórios acertam os seus prognósticos, reforçando o “dilema de Tostines”, no qual “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”?

No caso das previsões das consultorias, a correlação existente entre causa e efeito é muito forte, uma vez que é difícil saber ao certo o que é fato gerador e o que é consequência. Afinal, o futuro se concretiza porque houve uma previsão acertada realizada por visionários ou ele ocorreu por conta dos trabalhos de consultoria que recomendaram que se seguisse aquilo que havia sido previsto e estava descrito nos trabalhos? Nunca saberemos e pouco importa saber, mas é certo que escrever o futuro é sempre mais interessante do que ficar à mercê dos acontecimentos.

mulher executiva

Para os próximos anos, as principais consultorias do mercado preveem, dentre diversas outras apostas, que:

· A automação, a robótica e a inteligência artificial serão intensificadas, permitindo interações simples e inteligentes, resultando em valor em cada conexão executada e facilitando a interação de clientes com marcas na mesma velocidade em que diminuirão a capacidade de empregabilidade das pessoas. Prepare-se para trabalhar ao lado de sistemas, robôs, chatbots e outros equipamentos mimetizados;

· Novos padrões e regras serão desenhados para funcionar em indústrias transformadas de acordo com as demandas da economia digital. O que isso significará, não se sabe. As regras ainda serão escritas;

· As plataformas operacionais das empresas deverão ser substituídas por ecossistemas robustos baseados em trabalho de equipes muitas vezes contratadas e organizadas de acordo com as demandas. Será uma grande transformação no emprego, pois o vínculo de trabalho temporário e por competências se intensificará. Em outras palavras, prepare-se para trabalhar a partir de projetos de curta duração;

· As pessoas deverão ser capacitadas para lidar com os ecossistemas na forma de parcerias. Não fará sentido a visão de cliente e fornecedor. As transformações nas relações internas deverão ser estendidas aos demais participantes externos. Ao ajudar as pessoas a alcançar seus objetivos, todos se ajudarão, mutuamente, a definir um lugar mais nobre na evolução da sociedade. A relação entre pessoas e os resultados, sejam financeiros ou sociais, serão mais expressivos. Portanto, amplie sua conexão com o mundo (literalmente), desenvolva um método de estudo continuado e prepare-se para, mesmo sendo um técnico, conectar-se a pessoas e seus ecossistemas.

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Pixabay

Este panorama permite observar que tanto os profissionais de hoje quanto as gerações que se formarão nos próximos anos e que buscam empreender ou trabalhar no terceiro setor, no governo ou nas corporações, deverão se preparar para desenvolver habilidades de adaptação e aprendizado contínuos, inclusive a capacidade de pensar diferente. Os mais vividos se lembrarão do profeta Raul Seixas, em Metamorfose Ambulante: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pois assim será o futuro, um lugar onde a mediocridade significará fazer o básico, pensar o mínimo e estar fora do mercado, qualquer que ele seja. Seja flexível e muito bom naquilo que se propuser a fazer.

Outro aspecto muito delicado será o crescimento da população nas grandes cidades, fato que deverá aumentar a concorrência por trabalho, ampliar o consumo de energia e água, complicar muito a mobilidade, aumentar a falta de segurança e gerar mais crises sociais, principalmente pela redução da classe média, afetada pela escalada da automação e pelo desemprego. O trabalho estará em qualquer lugar do mundo. Prepare-se para trabalhar anywhere e para concorrer com pessoas e máquinas de todas as partes do globo.

Estabelecer propósitos, desenvolver valores, manter-se atualizado, preparar-se para novas formas de pensar e abrir-se para maneiras não convencionais e flexíveis de desenvolvimento profissional serão o caminho para a inclusão e a manutenção da capacidade de trabalho em um futuro (muito) próximo. Trabalhar em algo que faça a diferença talvez faça mais sentido que desenvolver uma carreira.

Espero que este panorama não seja tão complicado como aparenta e que eu possa, no futuro, cantar: “Eu vou desdizer aquilo tudo que eu lhe disse antes / Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”.

*Edson Moraes é sócio do Espaço Meio, Executive Coach desde 2014 e Consultor (Gestão & Governança) desde 2003. Foi Executivo do Bank of America entre 1982 e 2003. Seguiu carreira na Área de Tecnologia da Informação, foi Head do Escritório de Projetos e CIO por 4 anos. É Master em Project Management pela George Washington University. Participou de programas de educação executiva na área de TI ( Stanford University, Business School São Paulo e Fundação Getúlio Vargas). Formado em Comunicação Social – Jornalismo pela PUC/SP. É Conselheiro de Administração formado pelo IBGC, Coach pelo Instituto EcoSocial e certificado pelo ICF. Articulista e palestrante nas áreas de Governança, Tecnologia da Informação e Gestão de Projetos

 

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Networking, você sabe como fazer? por Edson Moraes

O desemprego, que sempre assustou a maioria dos profissionais, se torna aterrorizante em momentos de crise econômica. E, raramente, nos preparamos para momentos de transição na carreira. Se muitas vezes é difícil pedir demissão ao conseguir outro emprego, o que dizer daquele momento em que a decisão do rompimento contratual foi uma deliberação do empregador, restando na sensação de surpresa indesejada, vazio e falta de chão?

Muitas vezes, é somente nesse momento que percebemos o quanto ficamos distantes do mercado e das pessoas, afundados nas tarefas cotidianas e acreditando que isto bastaria para mantermos uma segurança inexistente e uma estabilidade impossível no mundo corporativo, ao menos para aqueles que optaram pela carreira em empresas privadas.

Até mesmo os empreendedores ficam mergulhados nas atividades necessárias para manter sua empresa em operação e se esquecem de manter sua rede de relacionamentos ativa.

Pois é, a rede de relacionamentos, mais conhecida como networking, que garantirá, na maioria das vezes, um novo ciclo na carreira, seja emprego, projeto, consultoria, cliente ou mesmo atividade voluntária. Mas como manter aberto esse canal com o mundo quando nos permitimos ficar enclausurados na atividade da vez, seja esta qual for?

estudante laptop computador

Antes de qualquer coisa, networking deve ser entendido como uma forma de se conectar ao mundo, ao mesmo tempo em que é uma forma de se perceber no mundo, uma vez que nada daquilo que fazemos pode ser executado sem alguma ajuda, explícita ou implícita, de alguém. Não somos sozinhos no universo. Como se diz no budismo: intersomos.

Mesmo para quem pretenda viver solitariamente, será necessário um lugar para morar, que foi construído por alguém, comida para se alimentar, que tenha sido plantada, colhida, transportada e vendida por “vários alguéns”, além de toda uma série de produtos e serviços necessários para a sobrevivência.

E neste interser devemos perceber o outro como uma extensão de nossas capacidades e necessidades, de forma a nos colocarmos à disposição, da mesma forma que um dia poderemos precisar do auxílio de alguém próximo para desempenhar alguma atividade.

O networking começa na família, passa pelos amigos próximos, por pessoas com as quais mantivemos algum contato, com quem tenhamos estudado ou trabalhado em algum momento da vida e, até mesmo, por aquelas com as quais eventualmente trocamos cartões e poucas palavras.

O segredo está na manutenção destes contatos, o que requer muito cuidado, pois isso poderá ser importante em um momento de reposicionamento no mercado, na busca de uma nova colocação, na oferta de serviços ou na estruturação de uma empresa.

Não há momento certo para se praticar o networking. Estejamos empregados ou procurando alguma atividade, a prática deve ser a mesma, pois será importante em qualquer circunstância. Seja buscando alguma satisfação pessoal, como uma dica de viagem; fazendo uma transição na carreira, divulgando para a rede pessoal que deseja mudar de atividade ou empresa; solucionando problemas no dia a dia do trabalho; compartilhando com colegas de profissão, mesmo que em outras empresas, um problema que se está enfrentando com um fornecedor ou produto; ou procurando conhecer novas pessoas. Não importa, o networking servirá como um grande instrumento para atingirmos os objetivos.

smartphone celular networking

Para quem ainda se sente tímido para começar sua rede de relacionamentos, saiba que nunca é tarde para retomar ou iniciar essa prática. Comece pelos contatos mais próximos, família e amigos, e siga ampliando sua rede de forma disciplinada. Ofereça sempre algo, pois o networking começa quando colaboramos com alguém – e não o contrário –, conduza as relações de forma genuína, respeite sempre a agenda do outro, torne o processo lúdico e, o mais importante, mantenha a sua rede de relacionamentos viva.

Mensagens por aplicativos e redes sociais, ligações telefônicas periódicas, convites para cafés, almoços, happy hours e jantares, sempre de forma descompromissada e sem interesses implícitos, farão com que sua rede siga forte e divertida. Afinal, é sempre prazeroso passar algum tempo de forma despretensiosa em companhia de pessoas inteligentes e simpáticas. O benefício poderá vir depois, na medida em que cada um doe a sua parte na relação. Afinal, intersomos.

*Edson Moraes é sócio do Espaço Meio, Executive Coach desde 2014 e Consultor (Gestão & Governança) desde 2003. Foi Executivo do Bank of America entre 1982 e 2003. Seguiu carreira na Área de Tecnologia da Informação, foi Head do Escritório de Projetos e CIO por 4 anos. É Master em Project Management pela George Washington University. Participou de programas de educação executiva na área de TI ( Stanford University, Business School São Paulo e Fundação Getúlio Vargas).

Design: de artigo de luxo à necessidade, por Marcelo C. Gallina*

A garrafa de água que você bebe está mais fina, pois usa cerca de 20% menos plástico em sua composição, sem alterar a qualidade do produto entregue ao consumidor. A mudança no design da embalagem economiza matéria prima, tanto para o planeta como para a indústria. Por ser mais leve, a economia também aparece no transporte das garrafas e no esforço de reciclagem.

Da mesma forma, a indústria automobilística utiliza o design para se diferenciar no mercado. Reduzir custos, otimizar a linha de produção e garantir a segurança e conforto do passageiro dentro do veículo é função de designers de diferentes áreas que se preocupam sobre como as peças do automóvel serão armazenadas da melhor forma possível, montadas da maneira mais rápida e ofereçam o maior nível de segurança para o motorista e passageiros. Tudo isso com um visual que seja atrativo ao consumidor.

O telefone celular que está no seu bolso também é um forte representante da importância do design na vida do consumidor atual. Com peso cada vez menor e materiais mais resistentes, os smartphones atingiram um nível de tecnologia tão similar entre os concorrentes, que a saída é buscar diferentes layouts que facilitem o seu uso e se diferenciem no mercado, tudo isso, sem elevar os custos, claro.

O sistema operacional dos aparelhos é um capítulo à parte na evolução do design. Com foco no layout, na usabilidade e na experiência do usuário, os desenvolvedores do Android, iOS e Windows Phone brigam para conquistar um lugar no coração dos consumidores, assim como diversos aplicativos disponíveis nas lojas de um dos sistemas.

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Ter uma boa ideia ou uma boa solução não é mais o bastante. Ter uma boa interface, com um projeto que foque na experiência do usuário é fundamental. A diferença é o que pode fidelizar o cliente ou não. O design é o elemento que influência a percepção do público sobre a sua marca e sobre o serviço que sua empresa oferece. Se o produto for difícil de achar, de usar ou tiver informações incompletas, por exemplo, o consumidor irá escolher o concorrente que ofereça essas características.

O foco na experiência do usuário é o motivo do grande sucesso de sites de busca e de aplicativos de localização geográfica, por exemplo. Aplicativos como o Waze se diferenciam pela interface amigável e intuitiva, com um boa hierarquia da informação e usabilidade, pois aplicativos de localização existem vários, mas poucos conseguem se popularizar como ele.

Muito além da redução de custos e da beleza dos projetos, o design atua como protagonista em cada vez mais áreas e assume o papel de ferramenta de gestão e inteligência nas empresas. Desde a formação da empresa, sua identidade visual, até a organização de produção, tudo pede a gestão estratégica do design, que será o principal responsável pela diferenciação no mercado e competitividade.

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Assim como David Butler e Linda Tischler apresentaram na obra “Design para Crescer – Aprenda com a Coca-Coca sobre Escala e Agilidade”, design, inovação e desenvolvimento andam juntos e quem não utiliza e aplica esses conceitos está ficando para trás.

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*Marcelo C. Gallina é coordenador dos Cursos de Design – Projeto Visual / Projeto de Produto / Design de Moda e da Pós-Graduação em Branding da Universidade Positivo.

 

Artigo: Te prometo ser fiel, por Renata Vasconcelos*

É triste, mas é verdade: aproximadamente 57 mil mulheres descobrem ter câncer de mama todo ano no Brasil, de acordo com o INCA. Eu fui uma dessas mulheres. Mais que números, são milhares de vidas atingidas fortemente por uma doença que faz sofrer quem a tem e quem está ao lado.

Quando descobri o câncer de mama estava com 33 anos, cheia de planos e tinha acabado de sair de um tratamento de gravidez sem sucesso. A notícia foi como ser afogada numa piscina, sem ter mais fôlego. Era exatamente esta minha sensação! Passei por quimio e radioterapia. Depois de três anos, passei a fazer acompanhamento médico a cada seis meses, além de usar um remédio oral.

Foi chocante perder os cabelos, não me reconhecia! E foi duro passar por todas as dificuldades de um tratamento agressivo, como é o oncológico. Mas, essa doença me modificou. Creio que não saiu de mim só o tumor, mas os apegos exagerados, as preocupações vãs, e, com certeza, meu tempo ficou mais valioso.

Mais ainda, pude ser cuidada por aquele que prometeu a Deus e a mim, fidelidade na saúde e na doença. No dia do nosso casamento, estava completamente saudável, jovem e cheia de planos, mas quando se faz uma promessa com o eterno, não se sabe o que vai acontecer no outro dia.

Ele me amou quando tinha cabelos e saúde, mas me amou também quando estava careca e sem forças para me levantar do sofá. Não vou dizer que foi fácil, estávamos enfrentando uma avalanche juntos, saímos cansados, feridos, mas de mãos dadas.

A verdade é que quando as mãos se unem no altar, só devem se separar no caixão, e, para quem crê, permanecem unidas para a vida eterna. Por mais que alguns digam não precisar ou não querer, as leis naturais de Deus estão impressas no coração do homem, portanto, cada um de nós busca um amor que nos ame na alegria e na tristeza.

Por isso, não dá para imaginar a dor de uma mulher que recebe essa notícia e não tem o apoio necessário da família. Um estudo realizado pelo Fred Hutchinson Cancer Research Center, nos Estados Unidos, apontou que 21% dos homens se afastam da esposa depois do diagnóstico de problemas sérios de saúde, como o câncer. O estudo ainda revelou que, quando um dos cônjuges adoece, o casal fica seis vezes mais propenso ao divórcio.

A verdade é que a face mais bela do amor se revela na dor, no sofrimento, na prova. Para mim, a promessa que eu e meu esposo fizemos no dia do nosso casamento, foi cumprida quando adoeci, e claro, a cada dia até hoje. Foi na dor que provamos a força do amor.

Para você homem: não tenha receio de não saber lidar com a doença, é natural ter medo e querer fugir. Talvez neste momento, você volte aos seus dez anos de idade, quando simplesmente corria, ao perceber o perigo. Mas, é nesta hora que é preciso dar a resposta de um homem que teme, mas não foge. Ela te conhece e sabe que você dará para ela o seu máximo. Portanto, aperte as suas mãos na hora de prender o fòlego, na hora da prova, e tenha certeza que será mais fácil chegar à superfície e respirar de novo se estiverem juntos.

Hoje, os capítulos que eu e meu esposo escrevemos em nossa história são de um ótimo momento, de felicidade com a chegada do nosso filho Gabriel. Não sei se estaria valorizando tanto este tempo, se não tivesse passado por dias tão escuros. O câncer me fez amar mais a vida, me cuidar melhor! Então, se você está passando por isso, aguenta firme! Você poderá terminar esta luta percebendo em você sua melhor versão.

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*Renata Vasconcelos é missionária da Comunidade Canção Nova, jornalista e autora do Livro Te Prometo ser fiel na saúde e na doença pela Editora Canção Nova.

O fim da era da “gourmetização”, por Guilherme De Rosso*

Coxinha gourmet, pastel gourmet e brigadeiro gourmet. Gourmet, gourmet, gourmet. A palavra ganhou tanta força no Brasil que tudo o que você possa imaginar ganhou uma variação “gourmetizada”. É claro que com tanta “gourmetização”, as pessoas acabariam enjoando. Hoje, o que os clientes buscam nos estabelecimentos, nada mais é que comida de qualidade, seja ela qual for, com preço justo e sem muita frescura.

Sempre achei o termo mal utilizado, vejo algo com “gourmet” na descrição e torço o nariz. Na grande maioria das vezes, um prato tradicional acaba sendo preparado com técnicas um pouco mais sofisticadas, ou com ingredientes mais caros e de melhor qualidade, o que nem sempre é verdade, e por conta disso acaba ganhando a denominação “gourmet”. Quando, na verdade, continua sendo o bom e velho prato tradicional de sempre.

Mas por que isso acontece? Simples, porque muitas vezes, as pessoas mal informadas, acabam achando que um pão ou bolinho “gourmet” é muito melhor do que um pão ou bolinho simples, tradicional, e acabam aceitando pagar muito mais caro por isso. O fato é que o pão ou bolinho “gourmet”, ou qualquer outro prato com essa denominação, nada mais é que o prato feito de forma diferente, ou uma releitura do mesmo. Não existe uma lei universal com os ingredientes exatos e quantias perfeitas.

O fim da “era da gourmetização”, para mim, era uma questão de tempo. Tempo para que as pessoas pudessem ir atrás de mais e novas informações e entender o que é algo “gourmet”, e não simplesmente pagar mais caro por um prato enfeitado, em um restaurante “A”, quando os ingredientes e técnicas usadas são as mesmas de um restaurante “B”.

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O que o público deve buscar, e tem feito, são pratos feitos com amor, com ingredientes de qualidade (nem sempre os mais caros), e com técnicas que façam com que os sabores sejam realçados, e uma apresentação que faça você salivar sem sequer usar o garfo ainda, sem precisar usar enfeites caros que não fazem o menor sentido no sabor do prato. Mas isso não precisa ser o prato mais caro ou nem o mais barato, mas, sim, o justo.

Esqueçamos a atual situação financeira do Brasil, onde o feijão está sendo vendido a peso de ouro. Para que isso cresça ainda mais, o público deve ir atrás de mais e mais informações corretas, e assim tem base de comparação e poder analisar e decidir o que é “justo” no mundo gastronômico.

Essa é minha visão, num mundo onde as informações são encontradas cada vez mais facilmente e a gastronomia tão globalizada, o público está ficando cada vez mais exigente, sabendo o que é bom de verdade e o que é apenas “gourmet”. Ficar de fora desse mundo depende inteiramente dos consumidores e donos de bares e restaurantes.

Chef Guilherme

*O chef Guilherme De Rosso é formado pelo curso de Chef de Cuisine – Restaurateur do Centro Europeu e se especializou no Italian Culinary Institute for Foreigners (ICIF), da Itália. Após alguns anos na Europa e experiências em restaurantes com estrelas do Guia Michelin, Guilherme retornou para o Brasil para comandar o boteco Simples Assim, em Curitiba.

 

O outro lado do Outubro Rosa, por Rodrigo Lima*

A campanha “Outubro Rosa” é talvez a mais conhecida dentre as campanhas de saúde desenvolvidas todos os anos em vários países do mundo. Tem como objetivo “alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, com sua origem nos Estados Unidos nos anos 90 e rapidamente chegando a outros países incluindo o Brasil, que teve a primeira campanha divulgada em 2002.

Em que pese a relevância epidemiológica do câncer de mama e o grande impacto que a mesma provoca na vida das mulheres atingidas pela doença, é importante avançarmos na discussão sobre a promoção do rastreamento populacional, especialmente a partir de dois aspectos: a) a fragilidade do rastreamento do câncer de mama enquanto estratégia de redução da morbimortalidade por câncer de mama, particularmente no Brasil; e b) a utilização da campanha como estratégia de marketing sem benefícios diretos à causa, e muitas vezes com danos à população.

A fragilidade do rastreamento do câncer de mama

O rastreamento consiste em “realização de testes ou exames diagnósticos em populações ou pessoas assintomáticas, com o objetivo de possibilitar o diagnóstico e tratamento oportunos, reduzindo assim a morbidade e mortalidade da doença rastreada”. Para o câncer de mama, a estratégia recomendada pelo Ministério da Saúde no Brasil é a de oferecer a realização de mamografia a cada dois anos, mesmo reconhecendo que a evidência que sustenta esta recomendação é fraca, e que “os possíveis benefícios e danos provavelmente são semelhantes” para a faixa etária entre 50 e 59 anos e “os possíveis benefícios provavelmente superam os possíveis danos” apenas na população entre 60 e 69 anos. É necessário realizar 2000 mamografias em mulheres no público-alvo para que uma dessas mulheres tenha sua vida salva pelo rastreamento.

Além dos benefícios apenas discretos já antecipados pela análise das melhores evidências científicas disponíveis, esta recomendação não demonstra ao longo dos anos resultados que justifiquem sua manutenção no Brasil, pois não há redução verificada na mortalidade por câncer de mama na população; na verdade, a taxa de mortalidade pela doença tem aumentado, o que pode acontecer por melhora na qualidade da informação disponível e pelo aumento da expectativa de vida, entre outras causas. Uma das causas para o insucesso da estratégia brasileira pode residir nos problemas que o país enfrenta para estruturar seu programa de rastreio com base no que recomenda a Organização Mundial de Saúde, que incluem, entre outros requisitos, o acompanhamento e garantia de acesso a tratamento das mulheres que tenham rastreamento positivo. Não adianta identificar mulheres com mamografia alterada e não oferecer o acesso oportuno ao tratamento necessário.

Além de ter resultados questionáveis, a estratégia de rastreamento por mamografias também está associada a danos basicamente ligados ao sobrediagnóstico, ou seja, ao diagnóstico e tratamento de tumores que não produziriam dano. O sobrediagnóstico é definido como a detecção de uma anormalidade que não progrediria ao ponto de causar dano ao paciente, e por isso, seu tratamento seria desnecessário. No caso do sobrediagnóstico do câncer de mama, temos danos que variam de danos psicológicos (ansiedade pelo resultado do exame e/ou pelo diagnóstico) até consequências dos procedimentos diagnósticos/terapêuticos (incluindo dor crônica, infecções, cirurgias desnecessárias e mutilações). Estima-se que para cada vida salva pela mamografia teremos 200 mulheres vitimadas por problemas relacionados ao sobrediagnóstico.

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O Outubro Rosa como estratégia de marketing

Além dos problemas com a estratégia de rastreamento em si, o Outubro Rosa tem um efeito colateral: virou uma estratégia de negócios. Inúmeras empresas associam sua marca à campanha anualmente, lançando produtos ligados ao “laço rosa” de alguma maneira, supostamente se comprometendo a doar parte do valor arrecadado para a causa. À primeira vista parece uma boa ação, mas verifica-se que uma parte irrisória dos lucros é doada, quando o é, de forma que a “causa” mais beneficiada acaba sendo o lucro do empresário “benfeitor”. Em algumas situações a empresa “rosa” produz outros produtos que também estão ligados ao câncer de mama, mas como causa da doença, o que ajuda a demonstrar a hipocrisia da adesão à campanha. Esse processo é denominado “pinkwashing” (em tradução livre, “lavando com rosa”), e já foi fartamente documentado em livros, filmes (vale ver o canadense “Pink Ribbons, Inc.”, infelizmente não lançado em português mas disponível em inglês na internet), e principalmente por uma campanha chamada “Think before you pink” (“pense antes de ficar rosa”, em tradução livre), que tem website próprio e defende a análise crítica dos que usam o Outubro Rosa como estratégia de marketing, disponibilizando várias informações que facilitam essa análise.

Concluindo, é importante pensarmos em estratégias que permitam a redução da incidência do câncer de mama, o seu diagnóstico e tratamento oportunos e, por fim, a mortalidade associada à doença, mas parece que estamos seguindo um caminho que consome uma parcela importante dos recursos disponíveis (que já são escassos) sem trazer os benefícios esperados, e que pode estar trazendo malefícios enquanto ajuda alguns a lucrar às custas do processo. A decisão de se submeter a um exame que está associado a benefícios e malefícios deve ser de âmbito individual, tomada após pleno esclarecimento sobre o assunto. Infelizmente as percepções das mulheres parecem superestimar os benefícios associados à mamografia: um estudo realizado em 2003 identificou que a maioria das mulheres acredita que a mamografia pode evitar o câncer (não pode), que diminui a chance de tê-lo pela metade (quando a redução não chega a 20%) e que reduz a mortalidade pela doença em pelo menos 1% (não chega a 10% disso). Campanhas populacionais devem discutir estes benefícios e malefícios, e não simplesmente induzir mulheres à realização de exames que podem não entregar o que prometem.

*Por Rodrigo Lima, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC)

Crise hídrica e comunicação falha, por Reinaldo Dias

Aparentemente, as autoridades brasileiras em todos os níveis da Administração Pública não estão compreendendo a gravidade da situação hídrica e climática que viveremos nos próximos meses. Isso porque as comunicações ao público carecem de conteúdo, reiterando repetidamente que a situação está sob controle, que os reservatórios estão num padrão aceitável e que os recursos hídricos suportarão o aumento da demanda, diminuindo a possibilidade de racionamento. Apontam, de modo geral, para chuvas que virão amenizar o problema.

A realidade é outra. Os rios estão secando, a vazão diminuindo a cada dia, tornando a situação pior do que no mesmo período do ano passado. Grandes reservatórios não recuperaram sua capacidade anterior, operando ainda com volume morto, portanto, abaixo do nível normal. Não há previsão de chuva significativa. Previsões de inúmeros órgãos internacionais apontam para ondas de calor de longa duração que agravarão a sensação térmica com temperaturas recordes neste ano.

As ondas de calor que atingiram a América do Norte, Europa, e diversos países asiáticos, embora normais, foram bastante incomuns, pois o aquecimento global que provoca as mudanças climáticas, fez com que sua frequência, intensidade e alcance aumentassem. Os resultados foram dezenas de milhares de pessoas hospitalizadas e muitas mortes. O Japão, que conta com um ótimo sistema de alarme e de enfrentamento de desastres desse tipo, registrou dezenas de milhares de pessoas hospitalizadas e muitas mortes somente no último mês de julho.

No início do mês de agosto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgaram novas orientações para enfrentar as contínuas ondas de calor que atingem o planeta. Manifestam a preocupação com o agravamento das condições climáticas no mundo e, em particular, com as altas temperaturas, a frequência e a intensidade das ondas de calor. Um dos pontos destacados é a necessidade de informação sobre o clima e os serviços de apoio como o gerenciamento do calor como um risco e a necessidade de se criarem sistemas de alerta para que a população e os governos estejam preparados.

Os cientistas apontam que enfrentaremos as maiores temperaturas desde que se iniciaram as medições no século XIX. No Brasil, as diversas instâncias governamentais já deveriam estar preparadas e, principalmente, alertando a população com comunicações realistas e um amplo trabalho de educação ambiental que prepare crianças, jovens e adultos a enfrentarem essa nova situação.

A má gestão, aliada à elevação das temperaturas, forma um caldo de cultura com consequências gravíssimas para os cidadãos, e particularmente, para aqueles mais pobres, que não tem acesso a equipamentos que amenizem os efeitos do calor.

O calor excessivo pode causar hidratação, insolação, enjoo, acidentes vasculares e atingem principalmente as crianças, os idosos e os doentes. A criação de sistemas de enfrentamento da crise hídrica que se aproxima é urgente, com destaque para a informação correta da população, sem meias palavras ou inverdades. A máxima é utilizar as palavras corretas para situações concretas.

O racionamento já ocorre para boa parte da população em várias regiões brasileiras, em particular na cidade de São Paulo, exatamente nos bairros onde reside a população mais carente. Reconhecer a gravidade da situação é o primeiro passo para enfrentar com sucesso o problema e o seu agravamento.

Somente com o público informado, e com uma participação ativa no processo de uso racional da água, poderemos evitar uma catástrofe maior do que aquela que ocorreu no ano passado. O calor virá, a chuva será pouca, e para agravar a situação, o fenômeno El Niño, que ocorre devido ao aumento da temperatura nas águas do pacífico, e nos atinge diretamente, será um dos mais significativos e duradouros dos últimos anos. Ainda dá tempo de mobilizar a população para evitar o pior!

*Reinaldo Dias é professor da Universidade Presbiteriana Campinas. Doutor em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política pela Unicamp e especialista em Ciências Ambientais.