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Hoje é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio

Setembro Amarelo – 97% dos suicídios estão ligados à depressão

No mês em que os olhares estão voltados para a prevenção do suicídio, Diego Tavares, psiquiatra e especialista em depressão e bipolaridade do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP alerta que a depressão do transtorno bipolar causa o dobro dos casos de suicídio da depressão clássica, mais conhecida pela maioria das pessoas. Mas por que pouco se fala na depressão com bipolaridade?

Segundo o especialista em transtornos de humor a maior parte das pessoas ao se deparar com temas relacionados a suicídio como automutilação, tentativas de suicídio e o próprio suicídio consumado, acaba dando atenção exclusiva aos fatores agravantes, mas não aos fatores predisponentes biológicos como as doenças psiquiátricas.

Muitos são os estressores ou gatilhos que levam ao suicídio: a perda de emprego, problema financeiro, separação, bullying, assédio moral, burnout, mas pouco se fala sobre as raízes de um comportamento suicida. E é disso que precisamos falar quando pretendemos prevenir o suicídio, agir nas raízes do problema.

“Quem se suicida está doente, isso é um fato, mesmo que a doença esteja silenciosamente oculta e na maior parte dos casos está, o suicídio traz, em algum grau, alguma desordem no sistema nervoso, nas regiões desregulação emocional. O suicídio é um problema que começa no cérebro e termina na ação, agravado por estressores psicossociais”, diz.

Para exemplificar, o médico enumera os tipos de depressão:

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Depressão melancólica: é a retratada nos filmes e, por isso, é o que a maior parte das pessoas acredita ser depressão. É um tipo grave, porém raro de depressão, em que os pacientes podem apresentar intensa lentidão motora, ficam de cama, parados o tempo todo, não comem, não tomam banho e têm acentuada perda da capacidade de sentir prazer por coisas antes prazerosas. A característica principal da melancolia é a completa ausência de reatividade do humor, ou seja, a pessoa não se anima com nenhum estímulo positivo.

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Depressão ansiosa: os pacientes apresentam sintomas depressivos menos graves, porém apresentam uma proeminência maior de sintomas ansiosos (medo intenso, preocupação, tensão, hipervigilância e insegurança).

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Depressão atípica: a pessoa sente um humor de apatia, sono excessivo durante o dia, aumento exagerado de apetite e reatividade do humor (melhora com fatores positivos eventuais). Costuma ser confundida com um esgotamento físico ou problemas como anemia, deficiência de hormônios etc.

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Depressão mista: é mais perigosa e a que apresenta o maior risco de suicídio. São quadros de depressão com maior agitação mental, desespero, angústia, dificuldade de concentração por distração e pensamento acelerado, maior irritabilidade, comportamentos compulsivos que aliviam a depressão (fumar, beber, usar maconha, gastar dinheiro, abuso de calmantes, se masturbar etc), aumento da fala (reclamando e sofrendo com a depressão), labilidade de humor (momentos de grande variação emocional).

Nesse tipo, os pacientes podem apresentar com maior frequência ideias de suicídio como fenômeno associado ao intenso desespero e angústia presentes nestes quadros. Ocorre com frequência no transtorno bipolar, devido a mistura de elementos da depressão com elementos da fase maníaca (agitação, desespero, pensamento rápido, impulsividade aumentada etc).

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De acordo com o especialista, a principal causa de suicídio são as depressões do transtorno bipolar (15% de frequência). Os tratamentos de depressões melancólicas, ansiosas e atípicas podem ser feitos apenas com medicamentos da classe dos antidepressivos mas quadros de depressão mista precisam de medicamentos da classe dos estabilizadores de humor (sozinhos ou associados aos antidepressivos).

“Mas, o mais importante de tudo é tratar a depressão como prevenção ao suicídio e sabermos que nem toda depressão se expressa da mesma maneira e que alguns tipos apresentam maior risco de suicídio. A depressão quando é grave não se cura sozinha e merece tratamento com medicamento e psicoterapia”, finaliza o especialista.

Fonte: Diego Tavares é graduado em medicina pela Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FMB-UNESP) em 2010 e residência médica em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ-HC-FMUSP) em 2013. Psiquiatra Pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (Gruda) e do Serviço Interdisciplinar de Neuromodulação e Estimulação Magnética Transcraniana (SIN-EMT) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ-HC-FMUSP) e coordenador do Ambulatório do Programa de Transtornos Afetivos do ABC (PRTOAB).

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Psiquiatra explica o papel do cérebro na síndrome do intestino irritável

Buscando respostas para a síndrome do intestino irritável, entrevistei o médico psiquiatra Eduardo Humes, Chefe da Seção Técnica de Psiquiatria do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Ele explicou a ligação entre a SII e o cérebro, o porquê de o tratamento do problema englobar outras áreas da saúde para ter sucesso e deu dicas de como lidar com o estigma de uma patologia ainda pouco conhecida. Confira:

Pergunta: Explique a ligação da SII com o cérebro.
Resposta: Os mecanismos envolvidos nos sintomas da SII não são claros. Ela é uma síndrome funcional, o que significa dizer que o problema não é uma questão de uma alteração que podemos ver como uma úlcera ou um tumor, por exemplo, mas uma mudança do funcionamento normal de um sistema. O sistema nervoso central modula o funcionamento geral do organismo, fazendo com que, no caso do intestino, ele possa funcionar de maneira mais rápida (maior quantidade de movimentos peristálticos) ou mais lento (menor quantidade).

No alerta de maneira crônica, o intestino deve receber informações do cérebro de maneira que possamos nos liberar de maior peso, por meio de um aumento dos movimentos peristálticos. Quando estamos no pico, a sinalização é para reduzir esses movimentos. Já na ausência do estímulo, funcionaria normalmente. Uma das teorias, talvez a principal, para explicar a oscilação do funcionamento intestinal na SII é que esta se daria por uma exacerbação da resposta a esses mecanismos. E o cérebro teria um papel essencial nesta modulação.

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P – As pessoas costumam ligar o problema à alimentação. Como convencê-las do contrário?
R – As síndromes funcionais são como grandes elefantes, se você estiver muito perto você só vai conseguir ver um pedaço. Alguns alimentos podem, sim, causar gatilhos mais exacerbados, o que facilita às pessoas a realizarem essas associações. Mas nem todos têm as mesmas reações aos alimentos. O convencimento, que é a parte mais “difícil”, passa por uma única estratégia, que é a educação. Por isso a necessidade de se ocupar as mídias com essa agenda.

P – Claro que há dias em que passamos por situações estressantes, mas como explicar que o problema surja mesmo naqueles dias considerados “normais”?
R – Esta questão tem que ser vista caso a caso, mas uma explicação frequente é que pessoas com síndromes funcionais podem ter o que chamamos de alexitimia, que é um termo para falar da dificuldade em entrar em contato ou descrever emoções, sentimentos e sensações corporais. Assim, muitas vezes a pessoa pode estar passando por uma situação mais “estressante”, por exemplo, e não se percebe assim.

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P– Há muita resistência das pessoas em aceitar o diagnóstico?
R – As pessoas, de maneira geral, apresentam um grande estigma com diagnósticos de saúde mental, seja de síndromes psiquiátricas ou de sintomas psíquicos em geral. Quando falamos que um sintoma físico pode estar relacionado a um funcionamento psíquico, muitas pessoas interpretam como fraqueza ou falha de caráter, por exemplo, e não aceitam o diagnóstico. Mas, em geral, quando procuram um profissional de saúde mental, a parte mais difícil do convencimento já foi feita por outra pessoa, profissional ou familiar.

P – O tratamento psicológico tem de correr em paralelo ao feito com gastroenterologistas e nutricionistas. Só assim se consegue melhora?
R – Gosto de fazer uma comparação com meus pacientes, pergunto se eles tivessem uma fratura na perna eles só iriam ser operados e tomar remédios ou se fariam fisioterapia também. A ideia de não fazer fisioterapia é muito similar à de não fazer psicoterapia para SII. Você pode melhorar, sim, mas talvez parte do potencial seja perdido.

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P – Como evitar estresse e ansiedade nos dias de hoje? Cidades grandes pioram o quadro, mas isso de se estar sempre conectado na internet e redes sociais também amplia o problema?
R – Esta é uma importante pergunta, talvez a pergunta do Prêmio Nobel… Mesmo a afirmação de que as grandes cidades pioram o quadro é controversa, elas com certeza aglutinam pessoas que são mais ansiosas, mas será que as pessoas mais ansiosas não buscam também por esses ambientes? Um problema que vemos frequentemente é que as pessoas estão cada vez mais inseridas em realidades virtuais em detrimento do contato humano.

Contato humano, um abraço de fato (não aqueles que nos acostumamos e duram menos de dois segundos), olhar nos olhos das pessoas, apresenta, sim, um efeito importante na maneira que nos sentimos. Já as redes sociais, que são excelentes em muitos aspectos, como dar voz a muitas pessoas que não conseguiriam se comunicar efetivamente, ao mesmo tempo criam situações nas quais a agressividade das pessoas sai por não terem o filtro do olho no olho.

P – A maioria das pessoas com este problema tem de tomar antidepressivos, por exemplo?
R – A decisão deve ser feita caso a caso, muitas vezes para aquele momento. Uma parcela importante poderá, sim, se beneficiar do uso de medicações, mas não a maioria e nem todos os que tiverem indicação usarão em longo prazo (mais que dois anos).

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P – Terapias complementares ajudam? Quais?
R – Sim, em especial meditação, atividade física e também acupuntura mostram efeitos importantes.

P – Pode citar algum caso em que o paciente teve uma melhor significativa?
R – Não, pela ética médica não posso citar um caso, mas, sim, muitos pacientes se beneficiam, em especial do seguimento psicoterápico, que pode ser feito por psicólogos ou psiquiatras.

P – Como agir no emprego? Falar abertamente com os superiores? Li depoimentos de pessoas que pararam de trabalhar, especialmente as que têm SII-D, porque passaram por experiências constrangedoras, até no caminho ao trabalho, no transporte público etc.
R – Os constrangimentos podem ocorrer em especial nas formas que apresentam quadros diarreicos (SII-D e SII-M). A maneira que cada um vai lidar com o impacto da SII depende inicialmente de como a própria pessoa lida com os sintomas. Se não conversamos abertamente, não haverá a redução do estigma. Antigamente, a epilepsia (e as convulsões) era associada a importante estigma, com a abertura no diálogo, hoje é tratada de maneira mais natural. O estigma é real, mas deve ser combatido dentro das possibilidades de cada um.

P – Como agir com a família, já que sempre haverá alguém achando que o problema é “frescura”, “nada sério”, “pode comer isso que não te fará mal…” etc.
R – O estigma é resultado do desconhecimento. Ajudar as pessoas a melhorar sua capacidade de compreender os fenômenos é a melhor forma de ajudá-las a sair do ciclo de preconceito.

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P – SII não tem cura, então, conselhos para se viver com ela, mas sem muitas manifestações. Ou isso é impossível.
R – Como todas as síndromes funcionais é essencial para o melhor controle o manejo do quadro, isso envolve o cuidado multiprofissional em diversas frentes, incluindo: gastroenterologia, nutricional, saúde mental, atividade física, meditação (como mindfulness), com adesão aos cuidados propostos.

Fonte: Eduardo de Castro Humes é médico psiquiatra, formado e residência pela Faculdade de Medicina da USP. Chefe da Seção Técnica de Psiquiatria do HU/USP, Coordenador Médico do Grapal/FMUSP, Colaborador do Escritório de Saúde Mental da USP, Diretoria Executiva do Forsa-Abem, Representante Internacional da Association for Colege Psychiatry, Doutorando do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Autor de artigos científicos e capítulos de livros, além de organizador de livros científicos em psiquiatria

Mitos que rondam o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

Diego Tavares, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que algumas doenças psiquiátricas são tão mal compreendidas que, com o tempo, vão perdendo o sentido original e incorporando características que não são e nunca fizeram parte delas.

“Hoje em dia, o transtorno de personalidade borderline (TPB) tem sofrido uma ampliação tamanha a ponto de transtorno bipolar clássico (tipo I), esquizofrenia, transtorno obsessivo compulsivo e até transtornos de ansiedade estarem sendo chamados de ‘transtorno borderline’ por conta da falha na formação adequada de psiquiatras e psicólogos”, fala o médico.

Afinal, qual a verdade sobre o problema?

1) A principal e definidora característica de um indivíduo com personalidade do tipo borderline é um problema no vínculo com as outras pessoas. “São indivíduos que lançam mão de esforços desesperados para evitar o abandono real ou imaginado. Qualquer fim ou separação (namoro, casamento, amizade, emprego) pode deflagrar uma crise em que a pessoa interpreta o afastamento como sinal de rejeição”, explica o médico.

2) Um padrão de relacionamentos instáveis caracterizados pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização, que é o típico “tudo ou nada”, “amo ou odeio”. O outro tem que ser perfeito e, se errar, passa a ser depreciado. Assim, ao recusar um pedido, o “melhor psiquiatra do mundo” se transforma em “lixo”. Também é comum a pessoa ficar íntima rapidamente de alguém, alimentar um monte de expectativas e, logo depois, cair em frustração e passar a odiar o outro.

“Estas são as duas principais e essenciais características para um diagnóstico desse transtorno. Todos os outros sintomas (alterações de humor, aumento de impulsividade, ideias de suicídio, automutilação etc) são secundários a uma situação que envolva um relacionamento interpessoal problemático que tenha envolvido o medo do abandono e o de se sentir rejeitado. Além disso, pra ser um TPB esses sintomas ocorrem desde o início da adolescência até a idade adulta”, fala o psiquiatra.

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Tavares comenta que mesmo que um paciente comece a apresentar problemas de relacionamento relacionados ao medo do abandono, se for apenas durante um período de depressão, por exemplo, e não durante a vida toda, não se trata de transtorno de personalidade. Esse é o problema mais grave que vemos nos dias de hoje, avaliar uma pessoa no momento presente e, por conta de sintomas “típicos de alteração emocional do borderline” fechar este diagnóstico. O transtorno de personalidade é crônico e relacionado ao amadurecimento da personalidade e não são sintomas que ocorrem exclusivamente em um momento da vida.

O que muita gente chama de TPB, mas não é:

1) Mudanças constantes de humor;

2) Alteração de humor marcada por raiva, ódio e rancor;

3) Automutilação em pessoas deprimidas;

4) Pessoas extremamente impulsivas;

5) Tentativas de suicídio constantes;

6) Pessoa com transtorno de humor que sofreu abuso sexual ou bullying na infância;

7) Baixa tolerância à frustração e imaturidade;

8) Pessoa irônica, provocativa e manipuladora que causa uma sensação ruim no terapeuta ou no médico.

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Foto: MedicalNewsToday

“O grande problema que tenho visto para um excesso de diagnósticos de TPB é que muitas vezes se utilizam sintomas isolados para o diagnóstico. Isso é, alterações de humor mais rápidas (no mesmo dia) ou mistas (com disforia, raiva e agressividade), que até podem ocorrer em um portador de TPB, são usadas como critério essencial e apenas a presença delas leva ao diagnóstico, sem uma devida avaliação da personalidade ao longo da vida. Outro erro comum é achar que todo adolescente que se mutila é borderline, sendo que esse sintoma ocorre muito em alguns transtornos de humor”, finaliza o médico.

Fonte: Diego Tavares é graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FMB-UNESP) e residência médica em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ-HC-FMUSP). Psiquiatra Pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (Gruda) e do Serviço Interdisciplinar de Neuromodulação e Estimulação Magnética Transcraniana (SIN-EMT) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ-HC-FMUSP) e coordenador do Ambulatório do Programa de Transtornos Afetivos do ABC (PRTOAB).