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Médica alerta: não adote a dieta fodmap sem acompanhamento profissional

Entrevistei novamente a gastroenterologista do Fleury Medicina e Saúde, Cristine Lengler, sobre a SII (síndrome do intestino irritável). Desta vez, conversamos sobre como as mulheres parecem ser as mais afetadas pelo problema. A médica também citou alguns medicamentos que podem ajudar quem tem a síndrome, mas que ainda não chegaram ao Brasil. Confira:

Pergunta: Parece que as mulheres são as mais atingidas pela SII. Por quê?

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Resposta: Realmente, a síndrome é mais frequente em mulheres. Sabemos que os hormônios femininos têm uma ação sobre a motilidade ou contração do intestino em mulheres, tanto nas mulheres com síndrome do intestino irritável quanto nas saudáveis. Eles modulam tanto a contração quanto a sensação de dor. Esses hormônios também podem modular a suscetibilidade ao estresse, que é um fator importante na ocorrência tanto da síndrome quanto dos sintomas. Até o momento não podemos dizer que os hormônios femininos são causa da síndrome, mas podem ter um papel no aparecimento dos sintomas e na sua intensidade.

Pergunta: No caso das mulheres, estes problemas podem estar ligados a outros, como a endometriose ou a piora dos sintomas durante o período menstrual?

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Resposta: Exatamente. Tanto na endometriose quanto no período menstrual, a quantidade desses hormônios circulando no corpo da mulher são modificados e, portanto, poderiam ser causa de piora ou de aparecimento de sintomas.

Pergunta: Poderia falar novamente sobre a dieta de baixa fodmap e se ela realmente é importante?

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Resposta: Fodmap é o conjunto de alimentos fermentáveis que são mal-absorvidos pelo nosso organismo e que podem causar desconforto intestinal. Esses alimentos fermentáveis são os carboidratos não digeridos pelo trato digestivo humano. Por não serem digeridos, em algumas pessoas, podem levar a uma maior formação de gases, consequente à fermentação pela flora intestinal e, consequentemente, desencadear sintomas como dor e distensão abdominal.

Quando a pessoa tem síndrome do intestino irritável, com pouca resposta à terapêutica habitual, a realização de uma dieta com baixo teor de fodmap pode auxiliar no controle dos sintomas. A ideia é identificarmos os alimentos desencadeadores de sintomas. Não é o objetivo manter a restrição de todo este grupo de alimentos para sempre. O ideal é que, após a pessoa se sentir melhor, vá reintroduzindo os alimentos gradativamente até identificar os específicos, de modo que, posteriormente, sejam evitados apenas os alimentos desencadeadores e que a dieta não fique muito restrita por muito tempo.

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Pinterest

Manutenção de dieta com pouco fodmap por longo prazo pode levar a várias deficiências nutricionais. Não é recomendada a adoção deste tipo de dieta sem acompanhamento profissional.

Pergunta: Há alguma novidade nessa área, como novos exames, tratamentos, medicamentos? Aqui e lá fora.

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Resposta: Existem, sim, alguns medicamentos, mas que não estão disponíveis no Brasil, como eluxadolina, rifaximina, lubirpostona, plecanatide e linaclotide. A microbiota tem um papel na síndrome do intestino irritável, mas ainda não sabemos qual a combinação de agentes probióticos e em qual dosagem deveriam ser utilizados para obtermos benefício e alívio completo dos sintomas. Apesar de poucos trabalhos sugerirem que alguns pacientes possam ter um certo alívio dos sintomas quando comparados com placebo, ainda não há evidência científica para se recomendar o tratamento da síndrome do intestino irritável com o uso de probióticos.

Pergunta: O que uma pessoa com SII deve fazer para ter uma melhor qualidade de vida? E o que evitar.

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Foto: Pinterest

Resposta: A pessoa com diagnóstico de síndrome do intestino irritável deve exercitar-se regularmente e dormir bem. Alguns trabalhos sugerem que a prática regular de meditação e a psicoterapia também podem auxiliar no controle dos sintomas.

Pergunta: E em relação à alimentação?

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Resposta: Recomenda-se consumo adequado de líquidos (em torno de 6 a 8 copos de água por dia), dieta rica em alimentos com fibras digeríveis. Conforme o sintoma principal, o médico poderá restringir alguns alimentos. No caso de pessoas com distensão abdominal e excesso de gases, pede-se para diminuir o consumo de alimentos como bebidas gaseificadas, bebida alcoólica, cafeína e alguns vegetais como brócolis, couve-flor e repolho.

Quando, além da dor, o sintoma for constipação, aumenta-se o conteúdo e fibras da dieta. Alguns pacientes com diarreia podem se beneficiar da diminuição de glúten da dieta. Em alguns casos recomenda-se a realização de dieta com baixo teor de fodmap. E, repetindo, a restrição alimentar deve ser feita sobre supervisão para que não leve a deficiências nutricionais.

Cristine Lengler é Formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Especialista em Gastroenterologia Clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua como médica gastroenterologista do Fleury Medicina e Saúde. É membro fundador do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB)

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